sexta-feira, junho 15, 2012

Texto originalmente publicado em umcadinhodesongs.blogspot.pt, por convite


Rock in Rio 2012 - Bruce Springsteen & the E Street Band

Antes de mais, gostaria de agradecer ao meu amigo e homónimo Ricardo Igreja pela amabilidade de me ter convidado para participar no seu blogue, ainda por cima, dando-me total liberdade de escolha sobre o tema de escrita. É evidente que a ideia surgiu pelo facto de além de partilharmos o nome, temos também outros traços em comum, tais como o fascínio pelas nossas famílias. Ah, e para além disso um interesse comum por música em geral e mais concretamente pelo rock, clássico e noutras formas.

Agradeço também a liberdade que me foi confiada para escrever sobre o panorama musical português, mas parece-me adequadoiniciar esta ronda de posts sobre uma temática comum a ambos os países. O festival de música Rock in Rio.

Para contextualizar, o Rock in Rio (RIR) em Portugal é algo que já se tornou parte da cena musical festivaleira nacional. Ideia reforçada nesta edição por Roberta Medina, que afirmou peremptoriamente que o RIR em Lisboa é para sempre, a não ser que seja expulso (subentende-se que se forem mantidos os apoios, nomeadamente ao nível do espaço disponibilizado pelo município de Lisboa - já lá vamos - a realização do festival não estará em causa). Com realização bienal desde 2004, apanhou a onda de festivais de Verão que varre o país de Norte a Sul, de Junho a Setembro, com a vantagem fundamental de ser localizado bem no centro da cidade, ao contrário da maioria dos festivais, que são organizados não raras vezes, em localidades remotas dos centros urbanos. Como marca distintiva dos outros festivais, foi desde cedo tomada a opção de apostar em grandes nomes do mainstream musical, ao invés de submeter o cartaz aos ditames das últimas tendências. Isto levou a algumas críticas por parte da elite intelectual, mas o que é certo é que os artistas apresentados (Paul McCartney, Guns N’ roses, Bon Jovi, etc e agora Bruce Springsteen) foram garantia de casa cheia em todas as edições, sem excepção, sendo a edição de 2010 talvez a mais fraca de todas, ao contrário da edição deste ano.

Quanto ao espaço em si, o Parque da Bela Vista, (uma grande área verde bem no centro de Lisboa), onde foi sempre organizado o RIR, tem como uma das suas vantagens a sua configuração de anfiteatro natural. Uma vez que o palco principal (Palco Mundo) fica situado no sopé, os artistas ficam sempre com a assistência bem visível até ao cimo do parque, favorecendo o envolvimento entre artista e assistência. O palco secundário (Palco Sunset) e outras atracções ficam do lado oposto do monte, permitindo que se circule em ambas as áreas sem que haja confusão sobre o que é que se está a ver/ouvir. Nesta edição tivemos pela primeira vez a rock street (que julgo já ter sido apresentada anteriormente na edição brasileira do festival), que foi um dos pontos mais quentes do festival, com actuações ao vivo de jazz e outras atracções.

Agora quanto ao cartaz propriamente dito. Apesar de muitos grandes nomes terem comparecido noutras edições, penso que este terá sido o melhor cartaz até à data, embora este tipo de análise seja sempre muito subjectiva. Senão vejamos a lista de comparências. Joss Stone, Ivete Sangalo, Maroon 5, Stevie Wonder, Lenny Kravitz, Bryan Adams, Metallica, Sepultura, Linkin Park, Smashing Pumpkins e claro está, Bruce Springsteen & the E Street band, entre muitos outros. distribuídos por outros palcos.

Uma vez que apenas estive presente ao vivo no dia 3 de Junho (para ver The Boss, claro está), vou falar apenas desse dia, no entanto em jeito de resumo aqui vai uma apreciação acerca do que vi nos outros dias do festival, através da televisão.

Surpresas, pela positiva:

  • Maroon 5 - Muito enérgicos e com muito envolvimento com o público. Tecnicamente muito bons e com sentido de espectáculo - algo que vai sendo raro.
  • James - Estes vi ao vivo e apesar da idade, em Portugal os britânicos são sinónimo de sucesso e conseguiram arrancar um concerto soberbo.
  • Linkin Park - Sem ser fã da onda Nu Metal, reconheço que estes tipos sacaram um grandíssimo concerto, muito intenso.
  • Bryan Adams - Grande rockeiro, com ligações a Portugal - viveu por cá - puxou pelo público e demonstrou estar em grande forma.
  • Stevie Wonder - Confesso que tinha algumas dúvidas, mas do que vi e do que me disseram mais tarde, ainda é homem para grandes palcos.

Confirmações
  • Joss Stone - Encantadora, profissionalíssima e lindíssima criou grande empatia e demonstrou ser um valor seguro da soul.
  • Metallica - Um valor seguro. Grande concerto como sempre.
  • Ivete Sangalo - Enérgica como sempre a arrebatar a plateia.
  • Xutos & Pontapés - No Brasil podem não os conhecer, mas dão dos melhores concertos rock que se pode ter. Sempre intensos e muito bem delineados. Rock do melhor - abriram para Bruce Springsteen.

Decepções
  • Lenny Kravitz - Entediante. Parece que toca só para a sua própria satisfação, sem grande química com a audiência.
  • Smashing Pumpkins - Alheados, um concerto sem rasgo e apenas para despachar a data.

Bruce Springsteen & the E Street Band

Sem dúvida o grande concerto de 2012 em Portugal. O Grande concerto de uma vida para muita gente, incluíndo para este humilde escriba. Passaram 19 anos desde a última visita de Springsteen em Portugal, e mesmo dessa vez, sem a E Street Band. Era a tournée mundial de promoção aos álbums Human Touch e Lucky Town, gravações de Springsteen “a solo” e que antecederam aquela que foi a década menos criativa do compositor, terreno apenas recuperado a partir de 2002, com o álbum The Rising.

Desde essa última visita poder-se-ia pensar que o interesse teria esmorecido, devido à ausência prolongada, mas o que sucedeu foi exactamente o oposto. A antecipação foi enorme, o que foi demonstrado pela dimensão do público (cerca de 85 mil pessoas acorreram à Bela Vista nessa noite) a grande maioria para ver o cabeça de cartaz, em sintonia com os artistas que o antecederam e que não se cansaram de o referenciar como influência e com admiração (James, Kaiser Chiefs, Xutos & Pontapés, todos fizeram referência a Springsteen mais que uma vez durante os seus concertos). Destaque para a referência que Tim Booth (James) fez à primeira vez que assistiu a um concerto de Bruce Springsteen, em 1976/77. Este contou que teria ido ao concerto algo contrariado (pois a onda dele era mais Sex Pistols e a onda punk da época), mas acabou por ir, convencido por um amigo. Disse ele que à terceira música já estava com um sorriso estampado no rosto, que não mais o largou, tal era o espectáculo vivenciado. Citando as suas palavras, foi aí que ele percebeu que não era preciso esforçar-se para ser “cool”, pois Springsteen emanava uma coolness natural e contagiante.


E de facto, para quem vive um concerto de Springsteen (viver é o termo, pois um concerto de Springsteen é de facto uma experiência transcendente - sem exageros), principalmente se for acompanhado da E Street Band, essa sensação de comunhão é suficientemente forte para à segunda canção o tal sorriso de que Tim Booth falava estar também estampado nos nossos rostos, sem desaparecer...

Agora quanto ao espectáculo propriamente dito, este teve início às 00h05 e o alinhamento obedeceu ao facto da tournée ser de promoção ao novo álbum Wrecking Ball. Assim, o alinhamento inicial foi o seguinte;

  1. We Take Care of Our Own
  2. Wrecking Ball
  3. Badlands

Um início forte para agarrar a plateia, com músicas novas e passando para um dos grandes temas da carreira, alternando entre o novo e o clássico, como foi regra durante todo o espectáculo. Funcionou muito bem, ajudado pela qualidade dos novos temas. Wrecking Ball (o álbum) irá ficar como um dos bons trabalhos de Springsteen. Muito dialogante e a exprimir-se num português impecável para quem não domina a língua (bem melhor do que o que Eddie Vedder costuma fazer), Springsteen faz jus à fama de grande entertainer, de uma forma muito genuína e natural, sem esforço nem recorrendo aos estafados clichés a que outros recorrem.

  1. Death to My Hometown
  2. My City of Ruins
  3. Spirit in The Night

O segmento seguinte serviu para acalmar um pouco as hostes (pois o concerto ainda ía no início), metendo temas do álbum The Rising, novamente um tema novo, seguido da introdução ao tema Spirit in the Night, do seu primeiro álbum. Quem seguiu na Tv/Youtube já pôde ver esta parte, embora a transmissão não faça justiça à verdadeira barragem de som que nos foi apresentada pela E Street Band - verdadeiramente fenomenal. Novamente com grande interacção do Boss com o público.


  1. Because the Night
  2. No Surrender
  3. She’s the One

No seguimento de Spirit in the Night, o concerto seguiu por temas mais antigos mas muito bem recebidos, qualquer um deles, sendo o She’s the One um pedido do público, como tem sido hábito dos seus espectáculos nos últimos anos. Sequência fantástica, com destaque para o Grande Max Weinberg na bateria e Nils Lofgren na guitarra, a levarem o público, em crescendo, ao rubro. Destaque para Because the Night, tema “oferecido” por Springsteen a Patti Smith, mas recuperado para os espectáculos ao vivo, e ainda bem.

  1. I’m On Fire
  2. Shackled and Drawn
  3. Waitin’ On a Sunny Day

Nesta sequência vemos toda a experiência e mestria do Boss a manter o público interessado, mas num ritmo um pouco mais pausado, para tanto público como banda recuperarem um pouco (e ele próprio pois com 62 anos já não vai para novo...). Destaque para Waitin’ On a Sunny Day, em que chamou um miúdo com cerca de 9 anos, do público, para o palco, para cantar, e não é que ele sabia a letra?? Um pouco desafinado, ok, mas foi um ponto alto do concerto, tal como para a criança e os seus Pais. Aproveitou também para introduzir um tema do álbum novo e para aceder a um pedido retirado do público (I’m on Fire).

  1. The River
  2. The Rising
  3. Lonesome Day
  4. We Are Alive
  5. Thunder Road

Neste segmento do concerto, em que foi comunicando muito com o público e em português, fez várias referências a Clarence Clemons, com muita retribuição sentida por parte do público. Destaque para o seu sobrinho, Jake Clemons, que ocupou o vazio deixado pelo Big Man e que para além de excelente executante de saxofone, consegue deixar o seu cunho no seio da banda, com muita energia e polivalência. Neste segmento pudemos ouvir vários temas do The Rising, que foi um dos álbuns a que Springsteen mais recorreu neste concerto. Fez bem, pois são temas muito bons e que merecem ser defendidos em palco para conseguirem perdurar, em particular Lonesome Day. É evidente que Thunder Road foi o ponto alto, e que marcou o fim da primeira parte do concerto.

Fantástica também foi a entrega de todos os elementos da banda bem como do próprio Bruce, que apesar da idade (são quase todos sessentões) demonstram uma energia, e uma alegria por fazerem o que fazem, que não tem par. Apesar de já ter assistido a alguns espectáculos ao vivo (U2, Pearl Jam, Muse, Dave Matthews Band, entre outros) posso dizer que foi, provavelmente, o espectáculo com mais energia e dos mais consistentes a que pude assistir. Tomara muitos miúdos com vinte ou trinta anos terem aquela energia.

Tradicionalmente seguir-se-ia o encore, mas não sei se estaria correcto tecnicamente, pois ninguém chegou a saír do palco, tal era o andamento. Assim que começaram a sair das posições, voltaram imediatamente atrás, e seguiu-se isto... Foi a primeira vez que vi um encore em que a banda não chega sequer a sair do palco.

  1. Born in The USA
  2. Born To Run
  3. Glory Days
  4. Hungry Heart (pedido do público)
  5. Dancing in the Dark
  6. Tenth Avenue Freeze-Out

E aqui a plateia foi ao rubro! Toda a gente a dançar e a pular, desde a primeira até à última, mesmo com tempo para retirar mais um panfleto da assistência e tocar Hungry Heart a pedido. Foram cerca de 45 minutos com um andamento absolutamente alucinante, e um som vibrante e emotivo para todo o público e banda. Incrível. Em Tenth Avenue Freeze-Out houve lugar para uma sentida homenagem a Big Man Clemons, com uma pausa a meio do tema para passar imagens dele e em que o público respondeu massivamente com aplausos contínuos. E depois voltaram à carga. Durante Dancing in The Dark, Springsteen foi buscar ao público duas senhoras (não eram meninas, mas sim mães de família com idade para ter juízo) para dançarem em palco, um pouco como Courtney Cox no vídeo original do tema. O problema é que para além das apalpadelas que Springsteen levou, às tantas não queriam sair do palco nem largar do seu pescoço... No entanto foi divertido. Falando em apalpadelas, das várias ocasiões que Springsteen saiu do palco para confraternizar com o público, muitas acabaram em sessões de apalpanço ao artista... Imperdível. Mas Bruce levou sempre tudo numa boa, como em todo o show.

Quando se pensava que tinha terminado (eram 2h 35m da manhã), e em que a banda já se encontrava na borda do palco (inclusivamente Max Weinberg já distribuia baquetas pelo público), a organização soltou o fogo de artifício que tradicionalmente marca o fim do festival. E então eis que a banda decidiu tocar mais uma (“one more” vociferou Springsteen novamente tal como tinha feito antes de Dancing in the Dark e novamente antes de Tenth Avenue Freeze-Out) e antes que o público percebesse o que é que se estava a passar, já estavam todos nos seus lugares a tocar Twist and Shout dos The Isley Brothers, iluminados pelo fogo do artifício, com uma energia e alegria que acho que já muito pouca gente tinha para dar, e no entanto eles deram. Deram tudo. E chegou a despedida. Foi absolutamente fantástico, uma verdadeira “life changing experience” e saímos todos com a consciência de que tínhamos testemunhado algo verdadeiramente especial, que dificilmente se irá repetir.

Destaques
Bruce Springsteen - O verdadeiro Boss (apesar de ele não apreciar muito o epíteto). Não parece ter 62 anos, mas sim menos 20 ou 30 anos. Mais de 2 horas e meia a correr, pular cantar, dirigindo um espectáculo verdadeiramente memorável. E com uma alegria em palco tão genuína que é impossível não ficar contagiado pelo espírito de entrega que emana quase de uma forma sobrenatural de Springsteen.
Max Weinberg -  Sem deixar de considerar os outros elementos da banda, um verdadeiro gigante na bateria, com uma precisão e energia notável.
Big Man Clemons - A ausência. No entanto não deixou de estar presente, através de várias referências, imagens e pelo seu sobrinho, Jake, que deixou uma excelente impressão.
A banda - Tocam e cantam como se fosse a primeira e a última vez. Não parece que estejam a fazer aquilo noite sim noite não, nem parece um trabalho. Prazer e deleite puro. E o público e os fãs agradecem.

 

Sinto-me verdadeiramente afortunado por ter presenciado, ao vivo, a um espectáculo memorável de uma das minhas principais referências musicais de sempre, e à lendária E Street Band. Não pensei que fosse acontecer. Um muito obrigado à Roberta Medina! Excelente!

quarta-feira, outubro 21, 2009

Blast From The Past #1



The Black Crowes - Amorica
Os Black Crowes (BC) são uma banda norte-americana originária de Atlanta (Geórgia) que conheço há já alguns anitos e da qual apenas detinha o álbum Greatest Hits (2000), do qual sempre gostei muito. Mas foi apenas recentemente que o interesse em explorar a sua discografia surgiu, sendo este "Amorica" (1994) a primeira verdadeira incursão pelo trabalho de uma banda que penso que não terá tido a atenção que merece.

Eventualmente vítimas de uma sonoridade que não é óbvia para o ar do tempo dominante, e talvez não o fosse já em 1994, este álbum tem muito mais valor do que aquele que as tabelas de vendas reflectiram, pois a controvérsia gerada nos EUA, pela capa que aqui vemos, possivelmente terá desviado as atenções da musica contida na obra. Falo sem ter termo comparativo pois como disse é o primeiro álbum da banda que ouvi por completo não tendo por isso grandes referências dos álbuns anteriores, a não ser as conhecidas da compilação atrás mencionada.

Quanto ao álbum, é um puro álbum rock que mete vários elementos de blues, soul, country e especialmente do "Southern Rock", que lhe confere a marca distintiva da banda. Temas como "A Conspiracy" e "Gone" abrem o álbum de uma forma enérgica que apenas voltamos a encontrar no álbum em "She Gave Good Sunflower" embora de uma forma menos declarada, pois este tema é um dos pontos mais altos do álbum e mistura vários géneros. O outro ponto alto é "Wiser Time" havendo depois lugar a exercícios que se podem considerar mais experimentais, se levarmos em consideração a matriz rock da banda. "P.25 London" a mexer um pouco com funk e "Downtown Money Waster" dão mais cor ao álbum e acabam por ser interessantes, mas fogem um pouco à coesão do todo. "High Head Blues" pisca o olho aos blues (e não é só pelo título), enquanto que "Ballad In Urgency" o já mencionado "Wiser Time" e "Nonfiction", metem blues com country e uma pitada de soul, tudo envolto numa capa de rock.

Em suma, temos aqui um sólido álbum de rock, e para quem gosta do género e é fã do rock dos anos 70 (incluíndo Lynyrd Skynyrd) pode ser uma valiosa adição à sua biblioteca de música. Para mim foi uma revelação. Até admito que achem este som um pouco enfadonho ou datado, mas para quem não vive ao sabor das modas e do já referido "ar do tempo", e genuinamente aprecia a música pela música (especialmente se for uma alma mais "rockeira") só pode considerar "Amorica" um belo álbum Rock!

Fiquem com o vídeo de "Wiser Time", que quanto a mim, não faz justiça à música. A qualidade do som também não é grande coisa, mas foi o melhor que encontrei.


terça-feira, outubro 20, 2009

Novo Lançamento #3


Dave Matthews Band - Big Whiskey and the Groo Grux King
Big Whiskey And The Groo Grux King (BW) é o mais recente trabalho da Dave Matthews Band (DMB), e o primeiro após o inesperado desaparecimento do membro fundador e saxofonista Leroi Moore no Verão de 2008. A sua presença ainda se faz sentir em alguns momentos do álbum, especialmente na faixa inicial, mas quanto a mim a sua presença nota-se pela sua ausência. À falta do seu saxofonista original a banda esforçou-se por não fazer desaparecer os instrumentos de sopro do seu reportório, e esse esforço transparece, por vezes excessivamente mas sem afectar o (muito) trabalho investido neste último álbum.

Não sei o que diz a crítica nesta altura, mas eu só posso afirmar que este é o trabalho da DMB  no século XXI. De todos os álbuns de originais que a banda lançou nesta década este é o trabalho que se afirma como o mais criativo, equilibrado e completo, incorporando a corrente criativa que influenciou a banda nos seus anos iniciais até "Before These Crowded Streets", e também a (excessiva) produção musical que pautou o som da banda nos três trabalhos anteriores, especialmente "Stand Up" e "Everyday".

Neste último trabalho temos aqui um regresso às raízes iniciais da banda , juntamente com o acumular de experiência musical e também de vida. Atingiu-se um equilíbrio musical entre a escrita e produção musical que já não se ouvia desde "Crash", uma vez que a partir daí a banda seguiu um trajecto de uma cada vez maior produção sonora que atingiu o seu pico em "Stand Up".

Mas em Groo Grux a DMB voltou a presentear-nos com verdadeiras pérolas musicais ao nível do portentoso "Crash", embora em menor quantidade. Temas como o single "Funny The Way It Is", "Dive In", "Spaceman" ou a surpreendente faixa de bónus "Write a Song" (um verdadeiro hino à boa onda musical), conferem ao álbum a solidez e criatividade musical que se espera de um grande álbum. Outros temas acabam por ser mais melosos ("You & Me", "Lying In the Hands of God") e outros a revelarem uma maior preocupação ao nível da produção e a incorporarem mais guitarra eléctrica, sendo a presença desta a marca mais distintiva entre os álbuns  da década de 90 e  da actual, fazendo assim a ponte entre as duas fases ( "Why I Am", "Alligator Pie", e especialmente "Seven")

No geral posso afirmar que não sendo o melhor álbum de originais da DMB, é claramente o melhor e mais bem conseguido trabalho dos últimos dez anos da banda, revelando consistência e uma muito maior maturidade artística que anteriormente.


Fiquem com o vídeo da obra prima que é "Funny The Way It Is",também ele uma obra-prima. Simples e eficaz.



domingo, outubro 04, 2009

Novo Lançamento #2


Muse - The Resistance
Novo álbum dos Muse nas bancas há já algumas semanas. Esta é uma das bandas mais empolgantes da actualidade na cena rock/metal/pop/nãoseibemcomoclassificarestesgajos.

Apareceram assim como quem não quer a coisa com o álbum "Showbiz" (que é excelente), mas explodiram verdadeiramente com "Origin of Simmetry", ficando logo à vista que estaríamos perante um trio de excepcional criatividade e sem medo de experimentar. E neste "The Resistance" fartaram-se de experimentar!

Matthew Bellamy teve neste álbum "The Resistance" campo aberto para experiências, e assumiu a tendência para a grandeza e para os grandes temas que lhe é característica e que encontra o eco perfeito nos concertos em larga escala, tendência bem visível em temas como "United States of Eurasia / Collateral Damage", "Uprising" e em menor escala "MK Ultra", já para não mencionar a trilogia épica "Exogenesis:".Isto dá ao álbum um ambiente muito Orwelliano, de luta individual contra as forças e os interesses de uma sociedade maior que o indivíduo. Indivíduo esse que está visivelmente apaixonado. "Resistance", "Mon Coeur S'ouvre a Ta Voix", sendo esta última uma fantástica e espectacular explosão criativa com vários tempos e assimétrica na sua estrutura, algo de que gosto muito.

Os Muse são uma banda que ao longo do tempo, e com cada álbum demonstraram sempre algum tipo de evolução, nunca se repetindo muito no estilo. Já vimos várias influências, desde Radiohead a Jeff Buckley e Metallica, sem esquecer Queen (especialmente nestes últimos álbuns), que são francamente homenageados em "United States of Eurasia". Este último "The Resistance" mistura tudo e atira para a frente a sólida formação e influência clássica de Bellamy, que sem vergonha ou pudor de qualquer tipo torna os Muse numa banda quase experimental, ou se quiserem até híbrida entre o Pop/Rock e a Ópera-Rock.

O resultado final, poderá não ser tão consensual, e quanto a mim, não será tão bom e completo quanto foi "Black Holes & Revelations", no entanto é um álbum marcante e algo diferente do que as bandas mainstream tradicionais estão habituadas a lançar, demonstrando uma garra e uma criatividade que não estão ao alcance de muitas bandas da actualidade. E estou particularmente empolgado com o tipo de concerto que nos espera a 29 de Novembro no Pavilhão Atlântico.

Recomenda-se.

sábado, outubro 03, 2009

Novo Lançamento #1


Pearl Jam - Backspacer
Os Pearl Jam lançaram um novo álbum de originais, o nono de uma sequência que começou em 1991 com o incontornável Ten. Este último, chamado Backspacer em honra a uma tartaruga apadrinhada pelos PJ. Backspacer vem confirmar a tendência para um rock mais simplificado da parte dos PJ que data desde o último álbum homónimo de 2006.

Passadas as experiências que culminaram em Riot Act com os PJ a passarem claramente por algum tipo de crise de identidade (apesar de no geral o álbum ter qualidade), decidiram simplificar a coisa substancialmente, e o que vimos em Pearl Jam é agora reforçado em Backspacer. Músicas como "The Fixer", "Johnny Guitar" ou "Supersonic" não escondem as influências punk rock que marcam esta década de PJ (desde Binaural - 2000) e afastam decididamente a imagem de grunge mais pesado que acompanhou a banda na década de 90, afastando-a ainda mais da sonoridade de uns Soudgarden e Alice In Chains, sonoridade essa que nunca foi realmente a dos PJ.

Não, de facto este álbum, na minha opinião, marca uma tendência mais no sentido de tornar os Pearl Jam como a verdadeira "All American Band" (as vendas têm correspondido e confirmado esta ideia), e não como uma banda de protesto como muitas vezes se tentou afirmar (desde as batalhas legais com a Ticketmaster, até ao cunho marcadamente político e anti-Bush patente no já citado Riot Act). Esta tendência de identificação com o americano médio foi já ensaida em 2006 com o tema "Unemployable", e é reforçada agora com temas como "Amongst the Waves", "Speed of Sound", "The End", "Just Breathe" e "Unthought Known", temas aliás que não escondem a marca de Eddie Vedder, e com uma clara influência da experiência deste último como compositor da banda sonora do filme "Into the Wild". Aliás, a maioria destes temas que citei poderiam constar dessa mesma banda sonora, sem destoar. Quanto ao resto do álbum,e  como já foi referido aqui, assenta a sua estrutura numa maior influência Punk-Rock com temas mais curtos, sendo "The Fixer" o tema mais festivo e "Got Some" o mais intenso e do qual gosto particularmente, e que penso que irá resultar especialmente bem nas actuações em palco.

Esta fase dos Pearl Jam poderá ser vista por alguns como menos criativa ou artisticamente menos enriquecedora, mas como tudo na vida, é natural as bandas evoluírem tal como evoluem as vidas pessoais dos seus membros, sendo estes agora um grupo de quarentões com filhos, e no geral, pelo menos aparentemente, de bem com a vida, não sendo de desprezar o optimismo que acompanha a Obamania nos EUA. Isso tudo está presente neste álbum, e que não sendo o mais ambicioso artisticamente dos PJ, é talvez o mais optimista e boa onda até agora.

E isso é bom, e os fãs (como eu!) agradecem!!